A transição é sempre algo meio esquisito... Ao mesmo tempo que vivemos no anseio de novidades, nos acomodamos com o antigo. É como se o ontem fosse uma garantia de amanhã.. Mas conforme o tempo vai passando e a infância vai deixando de habitar a consciência, você percebe que não existe nada além do hoje, no agora.. E o que antes era garantia agora passou a ser só mais uma impressão de um instante que nunca mais vai se repetir, ao mesmo tempo que o futuro é e sempre será incerto, nos cabendo somente a confiança plena em nossa essência e sua completude com relação à vida.
É exatamente nesse cenário onde a mudança ocorre. Quase sempre de forma inconstante, sacudindo todas as pedras que estão pelo caminho.. Mais ou menos com uma onda sísmica, que vai gradualmente e de forma lenta e ao mesmo tempo abrupta todo e qualquer perspectiva de terra firme em que se possa encontrar. Mas é justamente nesse cenário onde há vida, e mais, seu surgimento, seu desenvolvimento e sua respectiva maturação. Independente de onde haja mudança, ela sempre vai ocorrer de forma inteira, já que nada no mundo surge "do nada", assim como há uma ligação sutil e ao mesmo tempo bem concreta entre o desencadeamento de qualquer percepção, indo muito além da nossa capacidade de compreender aquilo que é real ou sistêmico.
Sem dúvida há uma relação muito mais complexa entre todos os cenários macrocósmicos e seus subsequentes microcosmos, cabendo à nós, observadores da ação cósmica, a opção de nos atentarmos aos movimentos maiores e navegarmos, da forma mais sábia que for possível dentro de cada instante, nesse mar de transição e incerteza.
No entanto, com a ação do tempo tudo inevitavelmente fica diferente. O que ontem se tratava de medo e de uma relação de insegurança, hoje não passa de um desarranjo, que incomoda um bocado, mas que faz parte de um contexto maior, um processo de lapidação e florescimento, o qual, acredito eu, todo ser passa ao longo da sua existência, independente do seu nível de consciência e de exercício "dharmático". Mesmo assim não posso negar que é um bocado estranho..
Acredito mesmo que a sensação de vazio é uma etapa da percepção da própria consciência. Porém, mesmo sendo algo natural (afinal, tudo é natural, já que somos parte da natureza), sinto que em boa parte dos despertares essa sensação nunca passa de forma desapercebida, pelo contrário, é sim um ponto de extremo desconforto e que tem intrinsecamente o poder de gerar mais movimento. Mas nem por isso deixa de ser desconfortável. Certamente a forma como lidamos com o vazio depende muito da nossa capacidade de perceber a real UNIDADE, ao mesmo tempo que exige muito da nossa competência de encarar e enfrentar nossos próprios medos, sentimentos esquecidos na gaveta e principalmente, nossas carências. Ainda assim, é o exercício que nos torna aptos a seguir em frente, mudando nossa forma de encarar a vida e principalmente à nós mesmos.
De fato, viver em movimento significa ser simples. E pela natureza da dualidade conforme percebemos a realidade, tal meta implica num exercício extremamente complexo de humildade, coragem e uma dose cavalar de desapego. Sim, não há como ser a própria natureza se não largarmos a confortável e segura saia da mãe, o colo da namorada, a experiência do chefe ou a sabedoria do guru. Para ser, temos que simplesmente nos atirarmos ao vento, ao mero prazer do tempo buscando construir um espaço onde o tempo não afaste aqueles que se amam, o interesse próprio não implique em refutar a diferença e a convivência harmoniosa não passe a ser uma ação, uma uma mera consciência de ser, viver e estar feliz, no sempre.

Nenhum comentário:
Postar um comentário